Com a proibição das apostas ainda sob análise do Congresso Nacional, iniciativa lançada no Seminário Internacional da FENASCON amplia a mobilização sindical contra o endividamento e a ludopatia. Articulação já chegou ao presidente Lula e à Igreja Católica e pretende alcançar autoridades municipais, estaduais e federais.
A proibição das bets no Brasil representa um avanço, mas não apaga as dívidas, não recupera automaticamente o dinheiro perdido e tampouco elimina a dependência que comprometeu a saúde mental de milhares de brasileiros. É justamente sobre esse saldo social que o movimento sindical decidiu concentrar uma nova etapa de sua atuação.
Durante o Seminário Internacional da FENASCON, realizado em Foz do Iguaçu (PR), foi lançada nesta sexta-feira (6) a Frente Nacional dos Sindicatos Contra as Bets, iniciativa que pretende transformar a conscientização sobre os riscos das apostas online em uma ampla mobilização social e institucional.
A proposta é levar o debate às bases sindicais, aproximá-lo da sociedade civil e fortalecer a articulação com câmaras municipais, assembleias legislativas, governos estaduais, autoridades federais e Congresso Nacional. A mobilização também deverá alcançar comunidades da Igreja Católica, ampliando a circulação de informações e a prevenção em espaços que mantêm contato direto com as famílias.
Proibição das bets: uma conquista que ainda exige mobilização
A Medida Provisória nº 1.394, editada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em setembro de 2026, proibiu a exploração e a publicidade das apostas de quota fixa no país. Entretanto, embora já esteja em vigor, a decisão ainda depende da aprovação do Congresso Nacional para se tornar uma legislação permanente.
Isso significa que a proibição poderá sofrer alterações, ser rejeitada ou perder sua eficácia caso não seja aprovada pelos parlamentares.
Nesse cenário, a FENASCON considera fundamental que o movimento sindical participe do debate público, contribuindo para que as consequências das apostas sobre a renda e a saúde dos trabalhadores sejam consideradas nas decisões políticas.
“As bets não retiraram apenas dinheiro do bolso dos trabalhadores. Em muitos casos, levaram embora a tranquilidade de famílias inteiras. Conseguimos colocar esse problema no centro do debate nacional, mas não podemos considerar a missão encerrada. Precisamos acompanhar o Congresso, dialogar com as autoridades e, principalmente, cuidar de quem ficou com as consequências. O sindicato também existe para defender a dignidade humana”, afirma Paulo Rossi, presidente da FENASCON.
Uma mobilização que chegou a Lula e agora avança para a Igreja Católica
A criação da Frente Nacional dá continuidade a uma articulação iniciada antes mesmo da proibição das plataformas.
Em setembro, Paulo Rossi entregou pessoalmente ao presidente Lula a cartilha “Desvendando as Bets”, durante um encontro em Curitiba, levando à Presidência da República o trabalho de conscientização desenvolvido pelo movimento sindical.
A mobilização também abriu um novo caminho de diálogo com a Igreja Católica. Em 8 de outubro, Rossi reuniu-se com o arcebispo metropolitano de Curitiba, Dom José Antônio Peruzzo, para apresentar a campanha e discutir a ampliação das ações educativas junto às comunidades religiosas.
A intenção é estender a iniciativa à Igreja Católica, buscando envolver paróquias, lideranças religiosas e comunidades em ações de prevenção e orientação sobre os riscos das apostas e seus impactos sobre as famílias.
A aproximação parte de uma compreensão comum: o endividamento e a dependência em jogos ultrapassam a dimensão individual e exigem uma resposta que envolva diferentes setores da sociedade.
A conta que ficou: endividamento, sofrimento emocional e ludopatia
Durante o seminário, a jornalista e comunicóloga Renata Azat aprofundou a discussão sobre os efeitos das bets, especialmente a ludopatia, transtorno caracterizado pela perda de controle sobre o comportamento de jogar, mesmo diante de consequências prejudiciais.
A exposição trouxe ao centro do debate uma questão que não pode ser ignorada: a retirada das plataformas do mercado não significa que os problemas provocados por elas tenham desaparecido.
O comprometimento da renda, as dívidas acumuladas, a deterioração das relações familiares e o sofrimento psicológico podem persistir por muito tempo. Para pessoas que desenvolveram dependência, a recuperação exige acolhimento, acompanhamento profissional e reconstrução da estabilidade financeira e emocional.
“Quando uma plataforma deixa de funcionar, suas operações podem ser encerradas, mas o sofrimento de quem desenvolveu dependência não termina no mesmo instante. Existem famílias tentando reorganizar suas finanças, reconstruir relações e recuperar a saúde emocional. Precisamos entender a ludopatia como uma questão de saúde pública, combater o preconceito e garantir que essas pessoas encontrem informação, acolhimento e caminhos para o tratamento”, destaca Renata Azat.
Da FEMACO à FENASCON: a campanha que ganhou dimensão nacional
A Frente Nacional nasce da experiência construída pela campanha “Desvendando as Bets”, idealizada pela FEMACO e posteriormente expandida pela FENASCON.
O trabalho começou com ações educativas direcionadas aos trabalhadores, levando informações sobre os mecanismos das apostas online, os riscos do comportamento compulsivo e as consequências financeiras e psicológicas da dependência.
Com dezenas de palestras e milhares de pessoas alcançadas, a campanha deixou de ser apenas uma iniciativa de conscientização para se tornar uma pauta de mobilização nacional.
O lançamento da Frente representa a ampliação dessa trajetória, com o propósito de reunir sindicatos de diferentes regiões em torno de ações educativas, articulação com o poder público e defesa de políticas permanentes de prevenção e assistência.
Mais do que acompanhar o futuro da legislação, a FENASCON pretende contribuir para uma resposta social aos danos provocados pelas apostas.
Afinal, proibir as bets é enfrentar a origem de parte do problema. Cuidar das famílias endividadas, combater a ludopatia e impedir que novas vítimas sejam feitas é enfrentar suas consequências. E essa responsabilidade não termina com uma medida provisória.











