Por Fabiano Polayna – MTB 48.458/SP
A proposta do governo federal de liberar o saque de até 20% do FGTS para pagamento de dívidas ainda não saiu do papel, mas já provoca debate. A ideia foi confirmada em entrevista recente pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, que admitiu que o governo estuda permitir o uso parcial do fundo como forma de aliviar o endividamento das famílias.
Apesar da intenção de ajudar quem está sufocado pelas contas, a FENASCON vê a medida com preocupação. Para a entidade, o risco é transformar uma reserva criada para proteger o trabalhador em uma saída imediata que pode custar caro no futuro.
“O FGTS não foi feito para pagar dívida do dia a dia. Não vejo essa medida como positiva. Pode até aliviar agora, mas enfraquece a segurança do trabalhador lá na frente”, afirma o presidente da FENASCON, Paulo Rossi.
Endividamento alto e bets ampliam o problema
O debate não acontece por acaso. O Brasil enfrenta um dos maiores níveis de endividamento dos últimos anos. Segundo a CNC, 80,4% das famílias brasileiras estão endividadas, um número que revela a pressão real no bolso do trabalhador.
Mas um fator tem pesado cada vez mais nessa conta: o avanço das apostas online, as chamadas bets. Com promessas de ganho rápido e fácil, essas plataformas têm atraído milhões de pessoas, e empurrado muitas delas para um ciclo de perda e descontrole.
Os números são claros. Pesquisa da Serasa com a Opinion Box mostra que 46% dos apostadores deixam de pagar contas básicas para continuar apostando. Ou seja, não é só dívida: é um problema que já envolve comportamento, vício e saúde.
Para a FENASCON, liberar o FGTS nesse cenário é como tentar apagar incêndio com gasolina. “Hoje, muita gente não está endividada só porque gastou mal. Está sendo puxada por um sistema que estimula apostas e consumo imediato. Se isso não for enfrentado, o problema continua” , reforça Rossi.
Papel dos sindicatos e o caminho da conscientização
Na avaliação da entidade, o maior risco é criar um ciclo perigoso: o trabalhador usa o FGTS para pagar dívidas, mas, sem orientação e sem mudanças estruturais, volta a se endividar, agora com menos proteção.
Por isso, a FENASCON defende que o enfrentamento precisa ir além de medidas emergenciais. Educação financeira, regulação das apostas e orientação direta ao trabalhador são apontados como caminhos mais eficazes. E nesse ponto, os sindicatos têm papel decisivo.
Para a entidade, as organizações que representam os trabalhadores precisam ampliar sua atuação com ações práticas de conscientização, como palestras, campanhas educativas e projetos que expliquem de forma clara os riscos das dívidas, do crédito fácil e das apostas.
“Informação é proteção. Se o trabalhador não entender o que está acontecendo, ele vai continuar sendo empurrado para o mesmo ciclo. Os sindicatos precisam estar na linha de frente dessa orientação”, afirma o presidente.
A proposta do FGTS ainda está em discussão, mas já escancara uma realidade: o problema do endividamento no Brasil é profundo e não será resolvido apenas com acesso a mais dinheiro.
Para a FENASCON, a saída não pode ser usar o que deveria proteger o trabalhador. O desafio é atacar a raiz do problema antes que ele se torne ainda maior.