A Argentina voltou a parar. Em um dos maiores atos de enfrentamento político desde o início do governo de Javier Milei, sindicatos de todo o país convocaram uma nova greve geral, realizada na última sexta-feira (27), paralisando transportes, serviços públicos, limpeza urbana, bancos e repartições estatais. O protesto ocorreu no mesmo momento em que avançava a polêmica Lei de Reforma Trabalhista, aprovada no Senado na semana passada e considerada pelos movimentos sindicais como o maior ataque aos direitos dos trabalhadores em meio século.
O país já enfrentava inflação persistente, queda acelerada do poder de compra e cortes profundos em serviços públicos. Esse ambiente se transformou em combustível para uma mobilização massiva que tomou Buenos Aires e outras capitais. Metrôs permaneceram fechados, ônibus circularam parcialmente e diferentes categorias marcharam em direção ao Congresso para denunciar o que classificam como um desmonte das bases históricas da legislação trabalhista argentina.
Segundo as centrais sindicais, a nova legislação amplia a jornada para até 12 horas, facilita demissões, reduz proteções contra dispensa injusta e enfraquece o direito de greve ao impor funcionamento mínimo obrigatório em setores estratégicos. Para os trabalhadores, trata-se de uma tentativa clara de esvaziar a capacidade de mobilização.
FENASCON: A Argentina está gritando por todos nós
A FENASCON acompanha de perto o avanço das políticas ultraliberais no país vizinho. Para o presidente Paulo Rossi, o que acontece na Argentina não é um episódio isolado, mas parte de um movimento que tenta se espalhar pelo continente. “O que estamos vendo na Argentina é um laboratório de retrocessos. Quando um governo tenta vender uma suposta modernização que arranca direitos, precariza famílias e tenta calar sindicatos, isso não é reforma. É ataque direto ao povo que trabalha”, afirma.
Para ele, a resposta argentina demonstra o poder da organização coletiva.
“A greve geral deixou claro que, quando o governo vira as costas para quem produz a riqueza do país, quem se levanta é o movimento sindical. É isso que sustenta a democracia real: unidade, coragem e defesa coletiva. A Argentina está gritando por todos nós.”
Um alerta para o Brasil
A FENASCON avalia que a ofensiva argentina deve servir de alerta ao Brasil, especialmente diante do avanço de discursos que defendem “flexibilizar”, “desregulamentar” e “enxugar” a legislação trabalhista sem considerar o impacto social.
“As mesmas ideias que destruíram salários e direitos na Argentina são repetidas aqui, com as mesmas palavras e a mesma lógica. Por isso, o recado é simples: se o trabalhador não se organiza, vira alvo fácil” , reforça Paulo Rossi.
Greve geral como instrumento democrático
A Argentina tem uma longa tradição de mobilização sindical. A greve geral da última semana, a segunda grande paralisação nacional em poucas semanas, consolidou uma mensagem inequívoca: direitos trabalhistas não podem ser tratados como moeda de troca.
O movimento reuniu centrais como CGT, FreSU e diversas federações de base, que classificam a reforma como um retrocesso civilizatório. A paralisação também mobilizou trabalhadores do setor de asseio e conservação, uma das categorias mais afetadas pelos cortes e pela flexibilização defendida pelo governo Milei.
Se a Argentina vive hoje o impacto de um governo que prometeu arrumar o país e entregou instabilidade, alta de preços e perda de direitos, o país também mostra a força de quem não aceita retroceder.
“A lição está dada. Ou a categoria se une, ou o prejuízo chega — e chega pesado. Sindicato não é problema; sindicato é proteção. É isso que a Argentina está ensinando ao mundo”, conclui o presidente da FENASCON.

Foto:Paulo Pinto/Agência Brasil